maio 8, 2009 - 11:21 pm

Amigos, desculpem o sumiço. Como esse blog foi criado para narrar a viagem durante a tragédia em Santa Catarina ano passado, achei que já era hora de começar a publicar minhas lucubrações em outro espaço e criei um outro site, o MINHA LAUDA, que tem o seguite link: http://grazieladelalibera.wordpress.com. Pelo menos uma vez por semana ele tem sido atualizado.

O curioso é que meu último post aqui fala da agressão sofrida por um médico durante plantão no Carnaval, que causou indignação entre os colegas e foi o estopim para o início de um movimento maior, que culminou na greve dos médicos da rede pública municipal, que Sorocaba vive nesse exato momento. Além das reivindicações referentes à segurança, a categoria quer reajuste salarial de 180%, o que já foi negado pela Prefeitura. As negociações prosseguem.

Fico por aqui. Um abraço e visitem meu blog!

Insegurança

fevereiro 27, 2009 - 12:56 am

Foi com estarrecimento que na terça-feira de Carnaval durante meu plantão no jornal li um boletim de ocorrência no qual era narrada a história de um médico plantonista de 52 anos que fora agredido covardemente a socos e pontapés no domingo à noite por dois desconhecidos. Eles chegaram exaltados na unidade de emergência, querendo atendimento imediato a uma garota que estava com eles. Bastou o médico pedir para que silenciassem os gritos para que fossem para cima.
Como lá a Guarda Municipal só atua em sistema de ronda, o profissional ficou a mercê da dupla, e acabou com cortes e hematomas no rosto e na mão direita.
Hoje, conversando com ele, lembrei da campanha da fraternidade 2009: não foi à toa que a CNBB resolveu este ano falar em “Fraternidade e Segurança Pública”, tendo como lema “A Paz é Fruto da Justiça”. Que a mensagem toque o coração das pessoas, e que cada um assuma sua responsabilidade dentro dessa realidade de insegurança.

Um brasileiro

fevereiro 18, 2009 - 1:08 pm

Sem oportunidade no mercado formal, Osvaldo Galdino conta que faz bicos como pedreiro

Sem oportunidade no mercado formal, Osvaldo Galdino conta que faz bicos como pedreiro para sustentar os filhos

A fisionomia é o retrato da situação difícil. Ele é viúvo, tem nove filhos. Para dar o que comer à sua família, Osvaldo Galdino, 52, morador do Parque São Bento 2, em Sorocaba, diz que faz bicos como pedreiro. Também conta com a ajuda da filha mais velha, Juliana. Ela é mãe de duas meninas em idade escolar e recebe R$ 102 do Bolsa Família.

Faz cerca de 15 anos que Galdino não tem registro em carteira. O último emprego formal foi como auxiliar de cozinha. Na época, morava em São Paulo.

Conheci Galdino quando ele passava pela viela 4 do Parque São Bento 2. Suas vizinhas o chamaram e ele parou. Estava com Juliana e a neta mais nova.

Até o fim do ano passado, ele recebia uma ajuda extra, do programa Bolsa Família, mas o benefício foi cortado.

Uma de suas filhas não cumpriu a freqüencia escolar exigida pelo programa para que a família continuasse tendo direito ao repasse, que ultimamente era de R$ 64.

“Faço um biquinho aqui, outro ali. Fome ninguém passa. Deus ajuda”, me contou, na tarde desta terça-feira. A foto é de Teylor Soares.

fevereiro 5, 2009 - 10:23 pm

Publico abaixo matéria do mestre Júlio Garcia que tem tudo a ver com o blog. Ele escreveu sobre o reflexo da crise econômica mundial na vida de um catador de latinhas e autorizou a reprodução aqui. Saiu domingo no BOM DIA Rio Preto. Lhes dou a oportunidade de conferir essa lindeza de texto. A foto é de José Carlos Moreira.
 
Tema de banqueiros e empresários, a crise chega ao catador de latinha

A 8 mil quilômetros de Wall Street, Cosme Biro-Biro cata plástico e latinhas de alumínio pelas ruas de Rio Preto. Apesar da distância, ele acompanha espantado a crise dos bancos norte-americanos, as oscilações das bolsas de valores e a retração nos negócios pelo mundo.
Desanimado com o noticiário, amassa duas latinhas de cerveja e as joga dentro do saco encardido que leva às costas. Passa a mão na testa para limpar a poeira grudada no suor e lamenta: “A crise americana me quebrou.”
O que era assunto de banqueiros, empresários e analistas de economia, agora está na boca do catador de recicláveis. “Até setembro, quando começou a crise, eu vendia o quilo de latinha a R$ 3. Agora, é R$ 1,50. O cobre tava em R$ 12 e caiu para R$ 6. Eu ganhava R$ 10 a R$ 15 por dia. E hoje não dá nem metade. Como é que vou viver?”
Cosme não é o único a reclamar dos efeitos da crise. Empregada da Cooperlagos, a cooperativa que reúne mais de 50 catadores em Rio Preto, Márcia Luzia de Oliveira, também viu despencar seu faturamento. “Na Cooperlagos, a gente tem um fixo da prefeitura e a partilha pelo material entregue. Em setembro, eu tirei R$ 308 na partilha. Em dezembro foi só R$ 130.”
Fernando Zanatta, dono de um dos maiores comércios de sucatas de Rio Preto resume a situação: “As montadoras compravam 80% do meu alumínio. Agora estão em crise. Se ela trava, a gente pára. O preço despenca. Foi o que aconteceu.”

 

‘Vai piorar’, diz empresário da sucata
Fernando Zanatta, dono da Rey Metais, na Vila Toninho, uma das maiores compradoras de sucatas na região, diz que a crise afeta toda a cadeia de recicláveis, em especial os metálicos, por causa da retração nas montadoras de de veículos.
“Um automóvel nacional tem em média 150 quilos de alumínio. Rodas de liga leve, pistão, cabeçote, radiador… Por isso, a procura era grande. Agora travou, ninguém compra.”
Zanatta fornece para a indústria Inbra, de Diadema. “Eles me pagavam em sete dias. Em setembro já passou para 10 dias. Depois foi para 15, para 30, e agora só me pagam com 45 dias. Ela compra da gente, faz o lingote e na hora de vender para as montadoras, não vende. Tá todo mundo parado.” Zanatta vendia 400 toneladas por mês. Hoje não chega a 200. “E vai piorar em fevereiro”, afirma ele.
“Meu lucro caiu pela metade”

Márcia Luzia de Oliveira: “Meu lucro caiu pela metade”

Sem documento, sem acesso

fevereiro 4, 2009 - 1:23 am

Dias atrás havia pedido à Prefeitura de Sorocaba qual a parcela da população que não possui registro civil. A resposta foi que esse levantamento não existe.

Essa semana, para minha surpresa, conheci por acaso um sorocabano que possui apenas certidão de nascimento. Ele vive em Brigadeiro Tobias, numa construção antiga, com a mulher e três filhas, de 3, 6, e 7 anos. A mais velha, me contaram, vai à escola, e a do meio frequenta a Pastoral do Menor.

As paredes do imóvel são de pedra, e lá não tem água potável. A casa fica numa área de brejo e é cercada por mato. Ele conserta aparelhos eletrônicos, que tomaram conta do espaço. “É totalmente analfabeto. Nunca teve registro em carteira”, disse a mãe dele.

Sua mulher falou que já tentou fazer o cadastro no Bolsa Família, mais isso foi inviabilizado devido à falta de documentação do marido. “O meu só falta o CIC”, assinalou.

Fazer o quê nesse caso?

Cana-de-açúcar

janeiro 30, 2009 - 1:45 am

Resolvi resgatar essa história para o blog. Em 2006 fiquei envolvida na cobertura do avanço da cana-de-açúcar no Noroeste do Estado de São Paulo. Um dia, a elétrica Maria Helena Couvre, então chefe de reportagem do BOM DIA Rio Preto, propôs que eu vivenciasse por algumas horas o trabalho de um cortador de cana. Topei na hora e dias depois fui a uma lavoura, acompanhada do repórter fotográfico José Carlos Moreira, e do motorista-pauteiro Waldir. Não aguentei mto tempo, saí de lá com as mãos machucadas.  A meu favor tive o fato de ter conhecido três mulheres que, com suas histórias, ajudaram meu trabalho. O texto, como foi publicado pelo enxuto BOM DIA, está logo abaixo.

Vale lembrar que a expansão dos canaviais engoliu pequenos agricultores do interior paulista, que se viram obrigados a abandonar suas culturas, além de escalar milhares de trabalhadores em condições longe de serem dignas. 

As três companheiras e um colega antes de começar a jornada - logo que chegam n canavial, eles forram o estômago

Hora de amolar os facões - as três companheiras e um colega antes de começar a jornada

 

 Forte, mulher exibe coragem na lida diária do corte da cana

     
Por Graziela Delalibera   
10 de June de 2006
 
“Melhor você cortar por aqui. Se entrar no canavial vai ser mais difícil”, afirmou o fiscal Mauro de Paula. “As meninas falaram que podemos dividir o eito. Prefiro ir.” As meninas eram Flávia Lima, 31 anos, Leide Aparecida da Costa, 36, e Leonilda Bueno, 41.

As três são exemplos de mulheres que ainda persistem no corte de cana, que exige cada vez mais força e agilidade para acompanhar o crescimento do setor sucroalcooleiro. Eu tive a sorte de conhecê-las minutos antes, durante o trajeto que levou os bóias-frias de Elisiário até a lavoura de cana-de-açúcar, em Ibirá.

“É sofrido, mas prefiro cortar cana. É só trabalhar direito que ninguém pega no pé.” O comentário é de Flávia, que já colheu laranja e foi doméstica. Agora, ela entra na sua terceira safra como cortadora, função que vai exercer até dezembro.
Depois da chegada no campo, enquanto recebi instruções do técnico de segurança, elas amolaram os facões e partiram para o meio do canavial. Quando as alcançamos, elas esperavam a distribuição dos eitos (área dividida onde cada cortador deve atuar). Flávia riu: “coitada, a blusa branquinha você vai ter de jogar fora”.
Diferentemente da maioria dos cortadores, da Paraíba, as meninas são de Elisiário. Flávia é casada. Leide e Leonilda, divorciadas. Flávia foi mãe aos 17. Leide, aos 18. Leonilda não teve filhos. “Ih, hoje a gente ia sair cedo mas chegamos tarde. Ia sair cedo… ”, se lamentou Flávia, prevendo que não veria a abertura da Copa.
Eitos divididos, antes de pegar na lida elas se sentaram e comeram. Leonilda me cedeu a garrafa d´água para que eu me sentasse e me deu parte de uma maçã.
Eram 7h, de sexta-feira.

Sensação de impotência marca repórter

O peso do facão, os óculos embaçados, calor. Parecia que tudo ia contra a lógica dos movimentos de um cortador de cana eficiente.
“No começo é sempre difícil”, tentou me animar Flávia. A cana era de primeiro corte. Mais pesada, tombada no chão. Requer mais força. Cerca de meia hora depois de começar, dei uma pausa. Olhei para Flávia, que também parou. “É ruim, né?” Me senti ligeiramente triste. Não consegui responder. Consenti com a cabeça.
Por volta das 9h percebi que as luvas de couro machucavam meus dedos. As meninas enrolaram fita neles e insisti mais um pouco no corte. “Aqui todos se ajudam”, falou Leonilda, que assim como as outras, mantinha o bom humor. “Melhor ser jornalista né”, me disse Flávia, na despedida.

Dinheiro vai para terreno

Igor Márcio Pedro, 27 anos, chegou a Elisiário em abril para trabalhar no corte da cana-de-açúcar. Até dezembro, vai enviar dinheiro todos os meses para sua família —pai, mãe e irmãs— que deixou em Princesa Izabel, sertão da Paraíba.
Faz nove anos que ele cumpre essa rotina. Nesta safra, o cortador tem um incentivo a mais para acelerar o trabalho na lavoura.
Ele está pagando as parcelas de um terreno onde planeja construir a casa em que vai morar com a noiva. O casamento está marcado para dezembro.
Por mês, ele diz que consegue tirar por volta de R$ 800. Em Elisiário, fica com a irmã e o cunhado, que vieram primeiro, motivados pela atividade canavieira.
A trajetória de Igor é parecida com a de muitos migrantes que atuam no Estado. A cada safra, são cerca de 80 mil que se dispõem a cortar cana em São Paulo.

Donos de quê?

janeiro 29, 2009 - 10:03 pm

Apesar de o assunto não ser novo, a matéria sobre a ação de flanelinhas publicada no domingo no Jornal BOM DIA deu origem a várias cartas na página Opinião, a maioria criticando o trabalho deles, e até o meu texto. Sei que o trabalho é clandestino, mas também que o mercado formal não absorve todo mundo, principalmente aqueles que não tiveram oportunidade de se preparar. Culpar a quem nesse caso?

Fica aí o recado. Colei na sequência o primeiro texto da série.

 Valeu!

Flanelinhas chegam a ganhar R$ 2 mil

Há guardadores de carro que, de moeda em moeda, conseguem arrecadar até R$ 100 por dia no centro de Sorocaba

Graziela Delalibera
Ele cuida de 26 vagas na esquina das ruas Santa Clara e São Bento, no Centro. Olha por dia de 160 a 180 motos que fazem a rotatividade. Recebe gorjetas que chegam a cerca de R$ 50 por dia, mas que podem atingir até R$ 100 no fim do ano. Detalhe: tem tudo anotado num caderno e na cabeça. “Contribui quem quer, como quer”, diz Raimundo Nonato Rocha, o Carioca.

O guardador toma conta da área há quase dois anos. Nascido em Manaus, criado no Rio de Janeiro, é exemplo de centenas de trabalhadores excluídos do mercado que encontraram na informalidade seu ganha-pão, e se profissionalizaram. “No fim do ano até fiz sorteio de uma cesta de Natal entre os clientes, mas o vencedor preferiu em dinheiro”, fala, mostrando uma capa antichuva que bolou para os capacetes. 

Perto dali, na rua Artur Martins, está João Carlos Batista, 33. Lá é Zona Azul. Além de receber gorjetas, ele revende bilhetes de uma hora (que compra a R$ 0,50) por R$ 2, e de duas (R$ 0,70), por R$ 3. Há dias em que tira até R$ 100. “Já trabalhei de vigilante e ganhava menos”, conta. “Além disso, sou adventista do sétimo dia e aqui não preciso trabalhar sábado.”

 

Uma brasileira

janeiro 29, 2009 - 9:36 pm

Olha ela no dia da mudança, atrás do Papai Noel - a foto é de Carlos Oliveira

Olha Silmara no dia da mudança, atrás do Papai Noel - a foto é de Carlos Oliveira

Hoje estive no conjunto habitacional Sorocaba H e revi alguns rostos conhecidos. Um deles foi o da catadora de recicláveis Silmara Aparecida
Rodrigues. Com 27 anos, ela cria cinco filhos sozinha. Logo ela veio com uma pastinha me mostrar uns documentos. 

Uma das preocupações, dessa vez, é em conseguir uma vaga na creche mais próxima para a pequena Andelina, de 2 anos.  A outra é com o trabalho: “você sabe que eu não tenho ninguém. Crio eles sozinha catando recicláveis. Mas aqui é longe dos meus clientes e desde que vim pra cá estou parada”, me contou. “Se for sair daqui para catar recicláveis vou precisar de quatro passes por dia, ida e volta para mim e para meu filho. Não tenho condições”, explicou.

Além das mazelas, percebi que ela e as crianças estão com a fisionomia melhor. Eles se mudaram de um barraco na Vila Baronesa para o conjunto habitacional na segunda quinzena de dezembro.

Como ficou no papel

janeiro 26, 2009 - 8:54 pm

Volto depois de algum tempo para postar as páginas em arquivo pdf que o BOM DIA publicou com a série de reportagens que eu e a repórter fotográfica Simone Lins produzimos sobre Santa Catarina. Semana passada separei para arquivá-las e então me ocorreu de colocar aqui pra vcs. Quem não viu, pode conferir. Essas são as versões que saíram no BOM DIA Sorocaba. São seis págs no total. A edição foi de Marisa Batalim.

Abrços!!! É só clicar: 03-0-008-0000-sor-qua 04-0-009-0000-sor-qui 05-0-009-0000-sor-sex 06-0-008-0000-sor-sab 07-0-008-0000-sor-dom 11-0-014-0000-sor-qui

Carta

janeiro 13, 2009 - 10:48 pm

Sei que o blog anda bem miado e talvez por isso os leitores deram uma sumida. Hj vou aproveitar o espaço pra postar uma matéria que me deu um misto de alegria e tristeza em fazer. Na semana que precedeu o Natal fui pra rodoviária de Sorocaba com a missão de escrever cartas. Qquer semelhança não é mera coinscidência. Cliquem aqui para ler. Ela foi publicada na segunda, dia 12. sobomdia0_12_1_208-cor1