fevereiro 5, 2009 - 10:23 pm

Publico abaixo matéria do mestre Júlio Garcia que tem tudo a ver com o blog. Ele escreveu sobre o reflexo da crise econômica mundial na vida de um catador de latinhas e autorizou a reprodução aqui. Saiu domingo no BOM DIA Rio Preto. Lhes dou a oportunidade de conferir essa lindeza de texto. A foto é de José Carlos Moreira.
 
Tema de banqueiros e empresários, a crise chega ao catador de latinha

A 8 mil quilômetros de Wall Street, Cosme Biro-Biro cata plástico e latinhas de alumínio pelas ruas de Rio Preto. Apesar da distância, ele acompanha espantado a crise dos bancos norte-americanos, as oscilações das bolsas de valores e a retração nos negócios pelo mundo.
Desanimado com o noticiário, amassa duas latinhas de cerveja e as joga dentro do saco encardido que leva às costas. Passa a mão na testa para limpar a poeira grudada no suor e lamenta: “A crise americana me quebrou.”
O que era assunto de banqueiros, empresários e analistas de economia, agora está na boca do catador de recicláveis. “Até setembro, quando começou a crise, eu vendia o quilo de latinha a R$ 3. Agora, é R$ 1,50. O cobre tava em R$ 12 e caiu para R$ 6. Eu ganhava R$ 10 a R$ 15 por dia. E hoje não dá nem metade. Como é que vou viver?”
Cosme não é o único a reclamar dos efeitos da crise. Empregada da Cooperlagos, a cooperativa que reúne mais de 50 catadores em Rio Preto, Márcia Luzia de Oliveira, também viu despencar seu faturamento. “Na Cooperlagos, a gente tem um fixo da prefeitura e a partilha pelo material entregue. Em setembro, eu tirei R$ 308 na partilha. Em dezembro foi só R$ 130.”
Fernando Zanatta, dono de um dos maiores comércios de sucatas de Rio Preto resume a situação: “As montadoras compravam 80% do meu alumínio. Agora estão em crise. Se ela trava, a gente pára. O preço despenca. Foi o que aconteceu.”

 

‘Vai piorar’, diz empresário da sucata
Fernando Zanatta, dono da Rey Metais, na Vila Toninho, uma das maiores compradoras de sucatas na região, diz que a crise afeta toda a cadeia de recicláveis, em especial os metálicos, por causa da retração nas montadoras de de veículos.
“Um automóvel nacional tem em média 150 quilos de alumínio. Rodas de liga leve, pistão, cabeçote, radiador… Por isso, a procura era grande. Agora travou, ninguém compra.”
Zanatta fornece para a indústria Inbra, de Diadema. “Eles me pagavam em sete dias. Em setembro já passou para 10 dias. Depois foi para 15, para 30, e agora só me pagam com 45 dias. Ela compra da gente, faz o lingote e na hora de vender para as montadoras, não vende. Tá todo mundo parado.” Zanatta vendia 400 toneladas por mês. Hoje não chega a 200. “E vai piorar em fevereiro”, afirma ele.
“Meu lucro caiu pela metade”

Márcia Luzia de Oliveira: “Meu lucro caiu pela metade”

Uma resposta para “”

  1. Rogério disse

    Essa é uma pauta que, só pela sacada, merecia prêmio.Uma pena que pela limitação do dia-a-dia, de tempo e espaço, não tenha recebido a dimensão editorial e a repercussão devidas. Sobre o Júlio, o que falar mais? Que além de ser um jornalista sensacional, é, na convivência, um sujeito que se revela a cada dia mais extraordinário.

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