Cana-de-açúcar
janeiro 30, 2009 - 1:45 am
Resolvi resgatar essa história para o blog. Em 2006 fiquei envolvida na cobertura do avanço da cana-de-açúcar no Noroeste do Estado de São Paulo. Um dia, a elétrica Maria Helena Couvre, então chefe de reportagem do BOM DIA Rio Preto, propôs que eu vivenciasse por algumas horas o trabalho de um cortador de cana. Topei na hora e dias depois fui a uma lavoura, acompanhada do repórter fotográfico José Carlos Moreira, e do motorista-pauteiro Waldir. Não aguentei mto tempo, saí de lá com as mãos machucadas. A meu favor tive o fato de ter conhecido três mulheres que, com suas histórias, ajudaram meu trabalho. O texto, como foi publicado pelo enxuto BOM DIA, está logo abaixo.
Vale lembrar que a expansão dos canaviais engoliu pequenos agricultores do interior paulista, que se viram obrigados a abandonar suas culturas, além de escalar milhares de trabalhadores em condições longe de serem dignas.
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Forte, mulher exibe coragem na lida diária do corte da cana |
| Por Graziela Delalibera | |
| 10 de June de 2006 | |
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“Melhor você cortar por aqui. Se entrar no canavial vai ser mais difícil”, afirmou o fiscal Mauro de Paula. “As meninas falaram que podemos dividir o eito. Prefiro ir.” As meninas eram Flávia Lima, 31 anos, Leide Aparecida da Costa, 36, e Leonilda Bueno, 41.
As três são exemplos de mulheres que ainda persistem no corte de cana, que exige cada vez mais força e agilidade para acompanhar o crescimento do setor sucroalcooleiro. Eu tive a sorte de conhecê-las minutos antes, durante o trajeto que levou os bóias-frias de Elisiário até a lavoura de cana-de-açúcar, em Ibirá. “É sofrido, mas prefiro cortar cana. É só trabalhar direito que ninguém pega no pé.” O comentário é de Flávia, que já colheu laranja e foi doméstica. Agora, ela entra na sua terceira safra como cortadora, função que vai exercer até dezembro.
Depois da chegada no campo, enquanto recebi instruções do técnico de segurança, elas amolaram os facões e partiram para o meio do canavial. Quando as alcançamos, elas esperavam a distribuição dos eitos (área dividida onde cada cortador deve atuar). Flávia riu: “coitada, a blusa branquinha você vai ter de jogar fora”.
Diferentemente da maioria dos cortadores, da Paraíba, as meninas são de Elisiário. Flávia é casada. Leide e Leonilda, divorciadas. Flávia foi mãe aos 17. Leide, aos 18. Leonilda não teve filhos. “Ih, hoje a gente ia sair cedo mas chegamos tarde. Ia sair cedo… ”, se lamentou Flávia, prevendo que não veria a abertura da Copa.
Eitos divididos, antes de pegar na lida elas se sentaram e comeram. Leonilda me cedeu a garrafa d´água para que eu me sentasse e me deu parte de uma maçã.
Eram 7h, de sexta-feira.
Sensação de impotência marca repórter O peso do facão, os óculos embaçados, calor. Parecia que tudo ia contra a lógica dos movimentos de um cortador de cana eficiente.
“No começo é sempre difícil”, tentou me animar Flávia. A cana era de primeiro corte. Mais pesada, tombada no chão. Requer mais força. Cerca de meia hora depois de começar, dei uma pausa. Olhei para Flávia, que também parou. “É ruim, né?” Me senti ligeiramente triste. Não consegui responder. Consenti com a cabeça.
Por volta das 9h percebi que as luvas de couro machucavam meus dedos. As meninas enrolaram fita neles e insisti mais um pouco no corte. “Aqui todos se ajudam”, falou Leonilda, que assim como as outras, mantinha o bom humor. “Melhor ser jornalista né”, me disse Flávia, na despedida.
Dinheiro vai para terreno Igor Márcio Pedro, 27 anos, chegou a Elisiário em abril para trabalhar no corte da cana-de-açúcar. Até dezembro, vai enviar dinheiro todos os meses para sua família —pai, mãe e irmãs— que deixou em Princesa Izabel, sertão da Paraíba.
Faz nove anos que ele cumpre essa rotina. Nesta safra, o cortador tem um incentivo a mais para acelerar o trabalho na lavoura.
Ele está pagando as parcelas de um terreno onde planeja construir a casa em que vai morar com a noiva. O casamento está marcado para dezembro.
Por mês, ele diz que consegue tirar por volta de R$ 800. Em Elisiário, fica com a irmã e o cunhado, que vieram primeiro, motivados pela atividade canavieira.
A trajetória de Igor é parecida com a de muitos migrantes que atuam no Estado. A cada safra, são cerca de 80 mil que se dispõem a cortar cana em São Paulo.
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